Há uma nova geração de modelos elétricos que está a despertar o interesse dos europeus, apesar de nunca ter sido pensada para chegar oficialmente ao nosso mercado. São os AUDI E5 Sportback e E7X, desenvolvidos na China pela parceria entre a Audi e a SAIC e destinados exclusivamente ao mercado chinês.
Algumas unidades já começaram, contudo, a chegar à Europa através de empresas especializadas em importação paralela. E, apesar de existirem formas de os legalizar e matricular, estes automóveis vivem numa espécie de zona cinzenta que pode trazer riscos significativos aos seus proprietários.

A situação não é inédita. Nos últimos anos, vários modelos desenvolvidos exclusivamente para o mercado chinês começaram a despertar o interesse de compradores europeus, sobretudo à medida que os fabricantes chineses passaram a apresentar veículos tecnologicamente mais avançados e, em muitos casos, mais baratos do que os equivalentes vendidos na Europa.
Agora, o fenómeno chegou à própria Audi.
Uma Audi diferente, sem os quatro anéis
Antes de mais, é importante esclarecer uma particularidade. Estes modelos não pertencem à mesma gama Audi que conhecemos na Europa.
A designação AUDI, escrita em maiúsculas e sem o tradicional símbolo dos quatro anéis, identifica a nova marca criada pela Audi em parceria com o grupo chinês SAIC para desenvolver automóveis elétricos especificamente destinados ao mercado chinês.

O resultado é uma gama completamente diferente daquela comercializada pela Audi na Europa.
Entre os modelos desenvolvidos por esta parceria encontram-se o AUDI E5 Sportback, uma espécie de sucessor elétrico para o A8, e o AUDI E7X, um SUV de grandes dimensões.
Ambos foram concebidos, desenvolvidos e produzidos na China e não fazem parte dos planos oficiais da Audi para o mercado europeu.
O E5 Sportback tem quase 800 cv
O interesse europeu por estes modelos não é difícil de compreender quando se olha para as especificações.
Produzido em Xangai, o AUDI E5 Sportback apresenta uma potência elétrica de 787 cv e uma autonomia homologada na China de 647 km, segundo o ciclo CLTC.
Já o E7X, um SUV de maiores dimensões, chega aos 680 cv e anuncia até 750 km de autonomia elétrica.
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São números que colocam estes modelos em território bastante interessante para o consumidor europeu, sobretudo quando associados aos preços praticados na China.
O E5 Sportback começa naquele mercado por cerca de 30.000 euros, ao câmbio atual. Na Europa, contudo, os custos de transporte, homologação, impostos e margens dos importadores fazem com que o preço possa facilmente duplicar.
Ainda assim, há clientes dispostos a pagar.
Importadores estão a trazê-los para a Europa
Um dos casos mais recentes envolve a empresa alemã Auto China, especializada na importação de automóveis produzidos para o mercado chinês.
A empresa já comercializa na Alemanha modelos de fabricantes como SAIC, Li Auto e Xiaomi e começou também a disponibilizar os novos AUDI desenvolvidos com a SAIC.

Segundo o importador, existe procura significativa pelos modelos e as unidades comercializadas na Alemanha contam com os procedimentos necessários para a sua matrícula e com garantia.
Mas há uma questão fundamental: o facto de um automóvel poder ser matriculado não significa que o fabricante queira que seja vendido naquele mercado.
E é precisamente aqui que começam os problemas.
Audi deixa claro que os carros são para a China
A posição da Audi é bastante clara. Um porta-voz da marca afirmou que estes automóveis foram produzidos e desenvolvidos especificamente para responder às necessidades dos clientes chineses e que foram concebidos exclusivamente para aquele mercado.
Isto significa que quem compra um E5 Sportback ou um E7X importado para a Europa pode ficar numa situação bastante diferente daquela de quem compra um Audi oficialmente comercializado pela rede europeia.

O software e os serviços digitais são um dos exemplos mais evidentes. Estes modelos foram concebidos para funcionar dentro do ecossistema chinês e podem existir limitações na utilização de determinadas funções na Europa.
Também permanecem dúvidas sobre a disponibilidade de peças, assistência especializada e suporte técnico a longo prazo.
E há ainda outro problema potencialmente mais sério: o que acontece se o fabricante decidir contestar a importação?
O precedente do Volkswagen ID.6
A história recente da Volkswagen mostra que o risco não é meramente teórico.
Em 2023, o fabricante alemão tomou medidas legais contra um importador que tinha levado para a Europa 20 unidades do Volkswagen ID.6, um SUV elétrico desenvolvido exclusivamente para a China.
A disputa prolongou-se durante vários anos e acabou com uma decisão judicial que proibiu a comercialização dos veículos e determinou a destruição das unidades.
É precisamente este precedente que está agora a levantar preocupações entre quem acompanha a importação paralela de automóveis chineses.
O caso não significa que os AUDI E5 Sportback e E7X estejam destinados ao mesmo fim. A Audi não anunciou, pelo menos para já, uma ação semelhante contra os importadores destes modelos.
Mas demonstra que um veículo legalmente adquirido na China e posteriormente introduzido na Europa pode acabar envolvido numa batalha jurídica entre o fabricante e o importador.
O risco para quem compra
Para um cliente interessado num destes modelos, a questão não é apenas saber se consegue matricular o automóvel.
É preciso perceber quem garante a manutenção, de onde vêm as peças, que serviços digitais estarão disponíveis, como funciona a garantia e o que acontece caso o fabricante altere a sua posição relativamente à comercialização na Europa.

Também existe uma diferença importante entre a homologação de uma unidade específica e o apoio oficial de uma marca. Um importador pode conseguir tratar dos procedimentos necessários para colocar determinado veículo na estrada, mas isso não transforma automaticamente esse modelo num produto oficial da marca naquele mercado.
É por isso que especialistas do setor automóvel alemão recomendam prudência.
Um paradoxo difícil de ignorar
O caso dos AUDI chineses representa, de certa forma, um dos paradoxos da atual indústria automóvel.
Enquanto os fabricantes europeus tentam controlar cuidadosamente a chegada de determinados modelos aos seus mercados, os consumidores conseguem cada vez mais aceder a automóveis desenvolvidos para outras regiões através da importação paralela.
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E, neste caso, estamos perante produtos que ostentam uma marca alemã, mas que foram concebidos especificamente para a China.
O AUDI E5 Sportback e o E7X mostram também como a indústria automóvel chinesa está a acelerar a sua evolução tecnológica. Potências próximas dos 800 cv, autonomias elevadas e preços competitivos tornam difícil ignorar estes automóveis.
O problema é que o facto de serem desejáveis não significa que sejam simples de comprar e utilizar na Europa.
Por enquanto, estes AUDI continuam a ser modelos chineses destinados ao mercado chinês. Alguns já encontraram, contudo, caminho para a Europa. E, tendo em conta o precedente do Volkswagen ID.6, quem decidir comprar um destes automóveis através da importação paralela deverá estar consciente de que pode estar a assumir um risco muito maior do que o simples custo de trazer um carro de outro continente.