As inspeções técnicas de veículos estão prestes a entrar numa nova era. A inteligência artificial e os scanners de alta precisão prometem tornar as inspeções mais rápidas, rigorosas e capazes de detetar problemas que atualmente podem passar despercebidos. E isso poderá obrigar milhões de automóveis a enfrentar reparações que até agora eram adiadas.
Durante décadas, a inspeção técnica de um automóvel assentou sobretudo na experiência e na observação dos inspetores. Mas essa realidade está prestes a mudar. A evolução tecnológica, aliada às novas exigências ambientais europeias, está a abrir caminho a sistemas capazes de analisar um veículo praticamente de todos os ângulos e identificar defeitos que o olho humano dificilmente conseguiria detetar.
A grande mudança deverá ganhar ainda mais importância com a entrada em vigor das novas exigências associadas à norma Euro 7, que introduz uma preocupação adicional com as partículas resultantes do desgaste dos travões e dos pneus. Para controlar estes e outros parâmetros, será necessário tornar as inspeções mais completas e precisas.
Um scanner que vê onde o inspetor não consegue
É aqui que entra uma das tecnologias que poderá mudar radicalmente o funcionamento das Inspeções. Empresas como a UVeye desenvolveram sistemas de inspeção automática capazes de analisar um automóvel em poucos segundos, recorrendo a câmaras, sensores e inteligência artificial.
Em vez de depender exclusivamente de uma inspeção visual, o veículo passa por um scanner de 360 graus que examina diferentes componentes e zonas da carroçaria. O sistema consegue identificar, por exemplo, danos nos pneus, desgaste irregular, fugas de fluidos ou problemas em zonas de difícil acesso.

A informação recolhida é posteriormente analisada por algoritmos de inteligência artificial, que conseguem comparar aquilo que está a ser observado com uma enorme quantidade de dados.
Na prática, aquilo que hoje pode passar despercebido durante uma inspeção poderá ficar registado numa imagem com um nível de detalhe muito superior.
O fim da margem para a subjetividade?
Uma das grandes vantagens destes sistemas será precisamente a capacidade de reduzir a componente subjetiva da inspeção.
Um defeito que atualmente possa ser considerado pouco relevante poderá passar a ser identificado e documentado através de imagens. O resultado é uma inspeção mais objetiva, baseada em evidências que ficam registadas no sistema.
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Para os responsáveis pelas inspeções, esta tecnologia poderá representar uma ferramenta importante para aumentar a eficiência e reduzir o tempo necessário para analisar cada veículo. Para os proprietários, porém, a realidade poderá ser bastante diferente.
Um automóvel que hoje consiga ultrapassar uma inspeção com pequenos problemas poderá deixar de o conseguir quando estes forem automaticamente detetados e classificados.
Pneus, travões e fugas entre os principais alvos
Os pneus estarão entre os componentes que mais poderão beneficiar desta nova geração de inspeções.
Os scanners conseguem analisar a superfície dos pneus e identificar padrões de desgaste, danos ou irregularidades. Em alguns sistemas, é possível inclusivamente criar imagens detalhadas da banda de rodagem e medir o seu estado.
Também as zonas inferiores do veículo deixam de estar tão dependentes da observação humana. Fugas de óleo ou outros fluidos, danos na transmissão e problemas estruturais poderão ser identificados com maior facilidade.
A tecnologia poderá ainda revelar modificações ou componentes que não correspondam às especificações originais do veículo.
Os carros mais antigos serão os mais afetados
É neste ponto que a nova tecnologia poderá ter maior impacto no parque automóvel europeu.
Os veículos mais antigos acumulam naturalmente mais desgaste e são também aqueles em que é mais provável existirem pequenas anomalias que, até agora, não impediam a aprovação numa inspeção.
Com uma análise muito mais rigorosa, alguns desses defeitos poderão deixar de ser considerados irrelevantes.
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O resultado poderá ser um aumento das reparações necessárias antes de uma aprovação na Inspeção. Em determinados casos, o custo da reparação poderá ser suficientemente elevado para colocar o proprietário perante uma decisão difícil: reparar o automóvel ou substituí-lo.
Isso não significa, contudo, que a União Europeia esteja simplesmente a preparar uma estratégia para retirar carros antigos das estradas. A principal finalidade destas tecnologias é aumentar a segurança, a eficácia das inspeções e a capacidade de verificar o cumprimento das regras.
Modificações ilegais também ficam mais difíceis de esconder
Outro dos efeitos poderá sentir-se entre os automóveis modificados.
Alterações na suspensão, pneus, carroçaria ou outros componentes que não estejam devidamente homologadas poderão tornar-se muito mais fáceis de identificar quando comparadas com as especificações originais do veículo.
A utilização de inteligência artificial permite ainda criar uma base de dados visual dos veículos e detetar alterações que dificilmente seriam identificadas numa inspeção convencional.
Para quem mantém o automóvel rigorosamente dentro das especificações legais, esta evolução poderá representar sobretudo uma garantia adicional. Para quem circula com modificações não homologadas, a margem de manobra será cada vez menor.
Inspeções mais rápidas, mas também mais exigentes
A ironia é que a mesma tecnologia que poderá tornar as inspeções mais rigorosas também poderá fazê-las mais rápidas.
Um scanner automático consegue recolher milhares de imagens e dados enquanto o veículo atravessa uma determinada zona da estação de inspeção. A inteligência artificial encarrega-se depois de identificar possíveis anomalias e assinalar ao inspetor aquilo que merece uma análise mais aprofundada.
O inspetor deixa, assim, de ter de procurar manualmente todos os problemas e passa a contar com uma ferramenta capaz de apontar diretamente para as zonas críticas.
É uma mudança de paradigma: a máquina não substitui necessariamente o inspetor, mas transforma-o num elemento de validação de uma inspeção cada vez mais digital.
O futuro das inspeções já começou
A combinação entre inteligência artificial, câmaras de alta resolução e scanners 360 graus promete transformar profundamente as inspeções técnicas na Europa.
Para os automobilistas, a principal consequência será simples: será cada vez mais difícil esconder pequenos defeitos ou adiar reparações. Um pneu desgastado, uma fuga ou uma alteração não homologada poderão deixar de passar despercebidos.
A verdadeira questão já não é, portanto, se a tecnologia vai chegar às Inspeções, mas até que ponto será integrada nas inspeções e com que rapidez será adotada pelos diferentes países europeus.
Uma coisa parece certa: quando estas ferramentas se tornarem comuns, levar o carro à inspeção poderá ser muito diferente daquilo a que estamos habituados. E para alguns automóveis, aquela pequena falha que antes passava despercebida poderá tornar-se, literalmente, impossível de esconder.