A exportação de automóveis elétricos usados da China para a União Europeia está a disparar. Entre janeiro e setembro de 2026, as vendas terão aumentado 280%, numa estratégia que permite escapar aos direitos compensatórios aplicados aos modelos novos.
A União Europeia quis proteger os fabricantes europeus da concorrência dos automóveis elétricos produzidos na China através da aplicação de direitos aduaneiros adicionais. Mas o mercado parece ter encontrado uma alternativa para contornar esta barreira: em vez de exportarem carros novos, os operadores chineses estão a apostar nos modelos usados, que não estão abrangidos pelas mesmas taxas compensatórias.
A estratégia está a ganhar dimensão e permite colocar no mercado europeu automóveis elétricos chineses recentes, muitas vezes com poucos quilómetros e a preços bastante inferiores aos praticados para unidades novas.
Exportação de elétricos usados aumenta 280%
Os números mostram a dimensão desta mudança. Segundo dados da plataforma China EV Marketplace (CEVM), entre janeiro e setembro de 2026, as transferências de automóveis elétricos usados provenientes da China com destino à União Europeia cresceram 280%, aproximando-se das 7.900 unidades.
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Em sentido contrário, as operações relacionadas com automóveis novos realizadas pelo mesmo operador caíram 44% durante o mesmo período.

A evolução sugere que o interesse dos compradores europeus pelos modelos chineses continua a existir, mas está a deslocar-se para o mercado de usados, onde os veículos podem beneficiar de um enquadramento aduaneiro diferente.
Recorde-se que os direitos compensatórios adicionais impostos pela União Europeia aos automóveis elétricos novos fabricados na China podem elevar a carga aduaneira até 45,3%, quando somados ao direito aduaneiro normal de 10%. Estas taxas adicionais não se aplicam, em regra, aos veículos usados genuínos.
Carros com poucos quilómetros e descontos até 40%
Há outro fator a tornar esta alternativa particularmente interessante: a intensa guerra de preços que está a marcar o mercado automóvel chinês.
A concorrência entre fabricantes, a chegada constante de novos modelos e as atualizações frequentes de equipamento estão a acelerar a desvalorização dos automóveis. Como consequência, é possível encontrar veículos elétricos com poucos meses de utilização a preços significativamente inferiores aos de um exemplar novo.
Segundo os dados divulgados, existem modelos de marcas como Xiaomi, BYD, Denza e Avatr com cerca de 6.000 quilómetros e descontos que podem chegar aos 40% face ao preço de um automóvel novo.

Para os compradores europeus, a possibilidade de adquirir um elétrico relativamente recente, com uma quilometragem reduzida e um preço mais baixo, representa uma alternativa cada vez mais tentadora.
Os operadores especializados estão também a adaptar a sua estrutura comercial, criando centros de entrega na Europa para facilitar a distribuição e reduzir os tempos de espera.
Importar um elétrico usado da China não é assim tão simples
Apesar da vantagem aduaneira, importar um automóvel usado da China continua a implicar custos e dificuldades que devem ser considerados antes de avançar com a compra.
Em primeiro lugar, a isenção dos direitos compensatórios adicionais não significa que o veículo esteja livre de impostos. Continua a aplicar-se, em regra, o direito aduaneiro normal de 10%, além do IVA correspondente e dos custos de transporte marítimo.
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Depois existem questões técnicas. Muitos automóveis produzidos para o mercado chinês utilizam o padrão de carregamento GB/T, diferente do CCS Combo utilizado na Europa. A compatibilidade com a infraestrutura pública de carregamento pode, por isso, exigir soluções adicionais, como adaptadores, cuja disponibilidade e homologação devem ser verificadas.

Também a conectividade e o software podem representar um problema. Algumas funcionalidades remotas poderão não funcionar fora da China, enquanto a disponibilidade de atualizações, peças de substituição e assistência técnica depende da marca e do modelo.
A garantia é outro ponto essencial. Antes de comprar, é importante confirmar se a cobertura do fabricante é válida na Europa e se existe uma rede de assistência capaz de assegurar eventuais reparações.
Bruxelas está atenta às importações
O crescimento deste negócio também está a chamar a atenção das autoridades europeias. Uma das preocupações passa pela possibilidade de alguns operadores matricularem automóveis novos na China e os exportarem pouco depois como usados, numa tentativa de escapar aos direitos compensatórios.
Por esse motivo, as autoridades aduaneiras estão a reforçar a análise da documentação e do historial dos veículos, procurando distinguir automóveis efetivamente usados de operações destinadas a contornar as regras.
Para já, o volume destas importações ainda não representa uma ameaça imediata para os fabricantes europeus. No entanto, demonstra que as barreiras comerciais nem sempre conseguem travar a procura por automóveis mais competitivos em preço e tecnologia.
Afinal, se os elétricos chineses continuam a despertar interesse na Europa, os compradores e os operadores parecem estar dispostos a encontrar outros caminhos para os trazer para o mercado comunitário.








